Quesitação na perícia médica: 4 perguntas que o advogado deve responder antes de quesitar

Quesitação na perícia médica: 4 perguntas que o advogado deve responder antes de quesitar

Quem quesita por curiosidade perde a condução do raciocínio e, com ela, a capacidade de influenciar a conclusão pericial

Introdução: o erro não está nos quesitos, está antes deles

Na prática da perícia médica, a maioria das quesitações falha por um motivo estrutural: começa cedo demais.

Inicia-se tentando decidir o que perguntar, quando, na verdade, deveria se decidir antes o que precisa ser demonstrado. Essa inversão compromete toda a construção, porque desloca o foco da estratégia para a forma.

O resultado é previsível:

▪️ Quesitos desconectados
▪️ Perguntas sem progressão lógica
▪️ Respostas que não convergem para uma conclusão
▪️ Baixa capacidade de influência sobre o laudo

O problema, portanto, não está na redação dos quesitos.

Está na ausência de uma arquitetura anterior a eles.

Quesitação, na perícia médica, não é um exercício de curiosidade. É um instrumento de condução racional. E condução pressupõe direção.

Quesitação na perícia médica: a diferença entre perguntar e conduzir

Reduzir a quesitação a um elenco de perguntas é empobrecer sua natureza.

Quesitar é organizar um percurso lógico.

É estruturar, em forma interrogativa, um caminho que se deseja ver percorrido pelo perito e, em última instância, pelo juiz.

Essa compreensão altera completamente o nível da atuação.

▪️ Perguntar para descobrir é postura reativa
▪️ Perguntar para conduzir é postura estratégica

Sem essa mudança de chave, a quesitação revela mais sobre quem pergunta do que sobre o objeto da perícia.

As 4 perguntas estruturais da quesitação na perícia médica

Antes de escrever qualquer quesito, quatro decisões precisam estar claras. Elas não são formais. São estruturais.

1. Qual é a tese defendida?

A tese é o ponto de chegada.

É a proposição que se pretende ver acolhida ao final do raciocínio pericial e judicial. Sem ela, não há direção. Pode haver técnica, documentos e conhecimento — mas não há condução.

Um erro recorrente na perícia médica é confundir tema com tese.

O tema delimita o campo. A tese define o destino.

▪️ Tema: Doença ocupacional
▪️ Tese: Não há nexo causal entre a doença alegada e o labor

Essa diferença é estrutural. O tema abre possibilidades. A tese restringe e orienta.

Uma tese adequada deve ser:

▪️ Clara
▪️ Delimitada
▪️ Defensável

E, sobretudo, funcional: tudo o que vier depois deve convergir para ela.

2. Quais argumentos sustentam essa tese?

Aqui está o núcleo da construção.

Sem argumento, não há tese, há apenas afirmação.

Na tradição clássica, esse momento é chamado de inventio: a descoberta dos argumentos. E essa descoberta não é intuitiva. É estruturada.

Os argumentos são extraídos a partir de tópicos (loci), que organizam o raciocínio.

Na prática da perícia médica, três estruturas são centrais.

Tópico do testemunho

É o campo dos dados objetivos.

▪️ Literatura médica
▪️ Protocolos e diretrizes
▪️ Prontuários e exames
▪️ Documentos ocupacionais
▪️ Normas legais e CPC
▪️ Jurisprudência

Esses são argumentos extrínsecos.

Não dependem da retórica para existir. Eles são o substrato da argumentação.

Tópico da relação

É o eixo central da análise pericial.

Aqui se constrói:

▪️ Relação de causa e efeito
▪️ Relação entre antecedente e consequente
▪️ Compatibilidade entre mecanismo e resultado

Na perícia médica, especialmente em análise de nexo causal, esse tópico é decisivo.

Sem relação causal demonstrada, não há sustentação técnica.

Exploração de contradições

É o ponto de maior sofisticação.

Consiste em revelar:

▪️ Incompatibilidade entre premissas
▪️ Ruptura lógica entre dados e conclusão
▪️ Incoerência interna do raciocínio

Aqui não se cria argumento novo.

Expõe-se que o argumento existente não se sustenta, quando se faz uma quesitação complementar, por exemplo.

Predominância do logos

Na perícia médica, o argumento central é lógico.

▪️ Coerência interna
▪️ Encadeamento entre premissas e conclusão
▪️ Rastreabilidade do raciocínio

Sem isso, não há prova técnica.

Há opinião.

Consequência prática

Sem estrutura argumentativa, a quesitação se torna frágil.

Com ela, ocorre uma inversão fundamental:

▪️ Não se pergunta para descobrir
▪️ Pergunta-se para convencer e validar a sua tese.

3. A quem se deseja convencer?

O alvo da quesitação não é fixo.

Ele varia conforme o momento processual.

Na fase inicial da perícia:

▪️ O Perito ainda está formando seu convencimento
▪️ Está mais aberto à organização lógica
▪️ É mais permeável à condução

Aqui, o alvo é o perito.

Após a emissão do laudo:

▪️ O Perito tende a defender sua conclusão
▪️ Há resistência à revisão
▪️ O discurso passa a ter função demonstrativa

Aqui, o alvo passa a ser o juiz, para que ele perceba as incongruências das afirmações contidas no laudo judicial.

Essa mudança altera completamente:

▪️ Linguagem
▪️ Estrutura
▪️ Finalidade dos quesitos

4. Quais respostas conduzem até a tese?

Este é o ponto mais sofisticado da quesitação.

A construção não começa pelas perguntas.

Começa pelas respostas.

A pergunta correta não é:

“o que devo perguntar?”

É: quais respostas precisam existir para que a tese se imponha como conclusão lógica?

As respostas estruturam o caminho.

▪️ Fixam fatos documentais
▪️ Estabelecem critérios técnicos
▪️ Produzem confronto lógico

Quando bem organizadas, geram um efeito decisivo:

o raciocínio passa a seguir uma trilha inevitável.

E, ao final, surge uma encruzilhada lógica:

▪️ Ou se admite a tese
▪️ Ou se rompe com a coerência construída

Conclusão: a quesitação não nasce na pergunta

Na perícia médica, a qualidade da quesitação não se mede pela sofisticação da forma interrogativa, mas pela solidez da estrutura que a antecede.

Quesitos bem redigidos não compensam a ausência de direção. Perguntas tecnicamente corretas não substituem a falta de construção lógica. E nenhuma formulação, por mais elegante que seja, é capaz de conduzir um raciocínio que não foi previamente organizado.

A quesitação, em seu nível mais elevado, não é um conjunto de perguntas. É a expressão final de uma arquitetura argumentativa já definida.

▪️ Sem tese, não há destino a ser alcançado
▪️ Sem argumentos, não há sustentação racional do percurso
▪️ Sem alvo, não há estratégia de condução
▪️ Sem respostas previamente estruturadas, não há caminho lógico a ser percorrido

Quando esses elementos não existem, a quesitação se dissolve em formalidade processual. Produz respostas, mas não produz direção. Gera conteúdo, mas não gera consequência.

Por outro lado, quando essa estrutura está presente, ocorre uma transformação silenciosa e decisiva.

A quesitação deixa de ser um instrumento de indagação e passa a funcionar como um mecanismo de condução racional da prova. O raciocínio deixa de ser espontâneo e passa a ser orientado. E a conclusão, ao final, deixa de parecer uma escolha para se revelar como decorrência lógica do percurso construído.

É nesse ponto que a quesitação cumpre sua função mais sofisticada: não impor uma tese, mas construir um caminho em que recusá-la passa a exigir a ruptura com a própria coerência.

E, em processos com perícia médica, esse é o limite que separa a pergunta da estratégia.

Seus quesitos não devem revelar o que você quer saber.

Eles devem comprovar que você já construiu o raciocínio que pretende ver adotado.

Dra. Michelle Pitz

Michelle Lima Pereira Pitz é médica e perita médica judicial, com mais de 2.000 perícias médicas realizadas no âmbito da Justiça Federal e Estadual. Graduada em Medicina e especialista em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui pós-graduação em Medicina do Trabalho. É membro da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícia Médica (ABMLPM) e atua na análise de incapacidade laborativa, nexo causal entre doença e trabalho e elaboração de laudos periciais técnico-científicos. Também é docente em pós-graduação em Perícia Médica, contribuindo para a formação de novos profissionais na área.

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