A história da médica que encontrou na perícia médica um novo sentido para a profissão.

Quando a Medicina deixou de fazer sentido e encontrei a perícia médica.

Por muitos anos, saía de casa triste para trabalhar.

Lembro de trabalhar seis dias por semana e, aos domingos, fazer plantão. Quando chegava o único dia de folga, ele muitas vezes era gasto apenas dormindo ou tentando me distrair para fugir da realidade.

No final do domingo, havia um ritual silencioso: dentro do carro, ainda no condomínio, eu chorava antes de sair para mais uma semana de trabalho.

Eu amava a Medicina.

Mas, naquele momento da minha vida, a forma como eu estava vivendo a profissão estava lentamente roubando algo muito importante: a minha alegria.

Entre colegas, aquilo parecia normal. Alguns até brincavam dizendo que a carreira médica era como um “balde de líquido amargo”: todos os dias tomávamos uma colherada, e no dia seguinte o balde estava cheio novamente.

Talvez fosse normal para muitos.

Mas não era saudável para mim.

O ponto de ruptura veio quando, além do meu marido, eu passei a deixar em casa também o meu filho mais velho, ainda bebê.

Foi nesse momento que um pensamento muito simples, mas muito profundo, surgiu na minha mente:

“Se é para sair de casa e deixar a minha maior riqueza, que seja para ser feliz.”

Foi então que decidi olhar para os lados.

E foi nesse movimento que encontrei a perícia médica.


O encontro com a perícia médica

A perícia médica judicial foi, para mim, um reencontro com o sentido da profissão.

Muitas pessoas imaginam que a perícia médica se resume a analisar documentos ou realizar um exame rápido. Na realidade, o trabalho do perito médico exige raciocínio clínico, análise crítica de evidências científicas e compreensão da história ocupacional do indivíduo.

A perícia médica existe para responder perguntas complexas dentro de um processo judicial.

Perguntas como:

  • Existe incapacidade laborativa?
  • Quando essa incapacidade começou?
  • Qual é a extensão dessa incapacidade?
  • Existe nexo causal entre a doença e o trabalho?
  • Qual é o impacto funcional daquela doença na vida da pessoa?

Responder a essas perguntas exige algo que sempre me fascinou na Medicina: o raciocínio clínico aplicado à realidade concreta da vida das pessoas.

Foi exatamente isso que encontrei na perícia médica.


A base clínica que sustenta o olhar do perito médico

Antes de atuar como perita médica, construí minha formação na Clínica Médica.

Sou graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e realizei residência médica em Clínica Médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, também pela UFRJ.

Essa formação clínica é um dos pilares da minha atuação na perícia médica judicial.

O olhar do clínico permite compreender a doença em sua complexidade real — algo essencial quando se avaliam questões como incapacidade laborativa, evolução temporal de doenças e repercussão funcional das patologias.

Posteriormente, também realizei pós-graduação em Medicina do Trabalho, ampliando minha compreensão sobre a relação entre saúde e atividade profissional.

Essa combinação entre Clínica Médica, Medicina do Trabalho e Perícia Médica forma a base da minha atuação.


A prática da perícia médica judicial

Atuo como perita médica judicial desde dezembro de 2022 e, nesse período, tive a oportunidade de realizar mais de duas mil perícias médicas judiciais.

Essa experiência inclui atuação em diferentes esferas do Poder Judiciário, como:

  • Varas Federais
  • Juizados Especiais Federais
  • Justiça Estadual

Além da atuação como perita médica, também trabalho como assistente técnica em perícia médica trabalhista, auxiliando advogados na análise técnica de processos que envolvem incapacidade laborativa, doenças ocupacionais e nexo causal entre doença e trabalho.

A perícia médica está exatamente na interseção entre três áreas fundamentais:

  • Medicina
  • Direito
  • Ciência

E é nessa interseção que surgem alguns dos desafios mais interessantes da profissão.


A experiência de ensinar perícia médica

Outro aspecto importante da minha trajetória foi a oportunidade de contribuir para a formação de novos profissionais.

Recentemente, tive a honra de atuar como docente em uma pós-graduação em Perícia Médica, ministrando o módulo Técnicas de Avaliação e Diagnóstico Médico.

Nesse módulo abordamos temas essenciais para o trabalho do perito médico, como o exame físico aplicado à perícia médica, a análise crítica de exames complementares e o desenvolvimento do raciocínio técnico utilizado na prova pericial judicial.

Ensinar é uma experiência muito especial.

Porque, quando ensinamos, somos obrigados a organizar o pensamento, revisar fundamentos e refletir mais profundamente sobre aquilo que fazemos na prática.

Muitas vezes, são justamente as perguntas dos alunos que nos fazem enxergar a perícia médica por novos ângulos.

A docência, portanto, não é apenas uma forma de transmitir conhecimento.

Ela também é uma forma de continuar aprendendo.


O papel da perícia médica na justiça

A perícia médica judicial tem um papel central dentro do processo.

Em muitos casos, o juiz precisa tomar decisões que envolvem questões médicas complexas. Nessas situações, o trabalho do perito médico funciona como uma ponte entre o conhecimento científico e a decisão judicial.

Isso exige algo fundamental do profissional que atua nessa área:

rigor técnico e compromisso com a verdade científica.

A perícia médica não existe para favorecer uma das partes.

Ela existe para esclarecer.

Por isso, a qualidade da prova pericial depende de método, análise crítica e fundamentação científica.


Por que falar sobre perícia médica

Apesar da importância da perícia médica no sistema de justiça, ainda existe muita desinformação sobre o tema.

Muitas pessoas imaginam que a perícia é apenas um exame rápido.

Outras acreditam que o perito médico atua como defensor de uma das partes.

Nenhuma dessas ideias corresponde à realidade.

A perícia médica judicial é uma atividade altamente técnica, que exige estudo constante, responsabilidade profissional e compromisso com a ciência.

Foi justamente por perceber essa lacuna de informação que aceitei com entusiasmo o convite para escrever neste blog.


O que você encontrará nesta coluna

Nesta coluna, pretendo compartilhar conhecimentos sobre perícia médica voltados a três públicos principais:

Peritos médicos, que lidam diariamente com os desafios técnicos da prova pericial.

Advogados, que precisam compreender melhor os aspectos médicos presentes nos processos judiciais.

Leitores leigos, que desejam entender como funciona a perícia médica e qual é o papel do perito médico dentro da justiça.

Ao longo dos próximos artigos, pretendo abordar temas como:

  • avaliação de incapacidade laborativa
  • nexo causal entre doença e trabalho
  • análise de documentos médicos em processos judiciais
  • estratégias de quesitação técnica
  • erros comuns em perícias médicas

Meu objetivo é contribuir para que a perícia médica seja melhor compreendida e melhor praticada.


Um novo capítulo

Curiosamente, o mesmo condomínio que, em 2018 e 2019, me viu chorar antes de sair para trabalhar, desde 2023 passou a me ver sorrindo ao sair de casa.

Hoje, saio para trabalhar com entusiasmo.

A perícia médica me devolveu algo muito valioso: a alegria de exercer a Medicina.

E é com esse espírito que inicio esta coluna.

Com o desejo sincero de compartilhar conhecimento, fortalecer a prática da perícia médica e contribuir para decisões judiciais cada vez mais bem fundamentadas.

5–7 minutos

Dra. Michelle Pitz

Michelle Lima Pereira Pitz é médica e perita médica judicial, com mais de 2.000 perícias médicas realizadas no âmbito da Justiça Federal e Estadual. Graduada em Medicina e especialista em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui pós-graduação em Medicina do Trabalho. É membro da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícia Médica (ABMLPM) e atua na análise de incapacidade laborativa, nexo causal entre doença e trabalho e elaboração de laudos periciais técnico-científicos. Também é docente em pós-graduação em Perícia Médica, contribuindo para a formação de novos profissionais na área.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo