Perícia médica: como o periciado deve se comportar no dia da avaliação para comprovar incapacidade laborativa.

Perícia médica: como o periciado deve se comportar no dia da avaliação para comprovar incapacidade laborativa.

O comportamento correto na perícia médica pode influenciar diretamente na análise da incapacidade laborativa, entenda o que fazer (e o que evitar)

O que o perito realmente avalia na perícia médica

Antes de entender como se comportar, é fundamental compreender um ponto central da perícia médica.

O perito não está ali para confirmar se o periciado tem uma doença.

Ele está ali para responder uma pergunta muito mais específica:

Essa condição de saúde gera incapacidade laborativa para o trabalho habitual?

Esse detalhe muda completamente a lógica da avaliação.

Na prática, isso significa que:

• Ter doença não garante benefício
• Relatar dor não é suficiente
• Documentos isolados não resolvem

O perito busca coerência entre:

• História clínica
• Exame físico
• Documentação
• Comportamento do periciado

E é exatamente aqui que o comportamento entra como elemento relevante.

Por que o comportamento do periciado influencia a perícia médica

A perícia médica é uma avaliação técnica, mas não é puramente documental.

Ela envolve:

• Observação direta
• Análise comportamental
• Coerência entre fala e atitude

O perito não avalia apenas o que é dito.

Ele avalia como é dito.

E, principalmente, se existe coerência entre:

• O que o paciente relata
• O que ele demonstra
• O que os exames mostram

Quando há incoerência, isso levanta dúvida.

E dúvida, em perícia, costuma prejudicar o reconhecimento da incapacidade laborativa.

Preparação para a perícia médica: o que levar e como organizar

A postura correta começa antes mesmo de entrar na sala.

A organização documental é um dos pilares da perícia médica.

Documentos de identificação

Leve sempre:

• RG, CNH ou documento oficial com foto
• Em formato original

Cópias, mesmo autenticadas, podem gerar dúvida sobre a identidade.

E, sem identificação adequada, a perícia pode nem ser realizada.

Documentação médica relevante

Aqui existe um erro muito comum.

Muitos periciados levam grande volume de documentos, mas com pouca pertinência.

O correto é:

• Levar exames relacionados à doença alegada
• Priorizar laudos e relatórios médicos
• Evitar documentos irrelevantes

Quantidade não substitui qualidade.

Laudo médico versus atestado

Existe uma diferença importante:

• O atestado é pontual
• O laudo conta a história

Na perícia médica, o laudo tem muito mais valor.

Ele mostra:

• Evolução da doença
• Tratamentos realizados
• Resposta terapêutica

Isso ajuda o perito a entender o caso.

Apresentação pessoal: o que o perito observa

Manual do que fazer e do que deve ser evitado durante a perícia médica.

A forma como o periciado se apresenta é o primeiro contato do perito com o caso.

E esse momento já é parte da avaliação.

Vestimenta adequada

A orientação é simples:

• Vista-se de forma habitual
• Evite exageros

Tanto o descuido excessivo quanto a produção exagerada podem gerar interpretações equivocadas.

Evitar simulação visual

Tentar “parecer mais doente” é um erro grave.

O perito está treinado para identificar:

• Inconsistências
• Exageros
• Comportamentos artificiais

Simulação raramente passa despercebida.

E, quando percebida, compromete todo o restante da avaliação.

Atitude durante a perícia médica

Aqui está um dos pontos mais decisivos.

A forma como o periciado se comunica pode influenciar diretamente na análise.

Seja objetivo e responda ao que for perguntado

Não antecipe respostas.

Não tente conduzir a consulta.

A melhor postura é:

• Ouvir
• Responder
• Aguardar

Isso demonstra colaboração.

Evite tentar convencer o perito

O perito não decide com base em emoção.

Ele decide com base em técnica.

Frases como:

• “Estou precisando muito do benefício”
• “Minha situação está difícil”

não têm impacto técnico.

E podem, inclusive, gerar desconforto.

Cuidado com a chamada “síndrome do portal”

Esse é um fenômeno conhecido na perícia médica.

O periciado:

• Age normalmente fora da sala
• E muda completamente ao entrar

Exemplo:

• Entra andando normalmente
• Começa a mancar ao ser chamado

Esse tipo de incoerência é facilmente percebido.

E compromete a credibilidade.

O exame físico na perícia médica

O exame físico é um momento técnico.

E exige colaboração.

Colabore com o exame

O perito pode solicitar:

• Movimentos
• Testes específicos
• Avaliações funcionais

A orientação é:

• Faça dentro das suas limitações reais
• Não exagere
• Não resista sem justificativa

A recusa injustificada pode ser interpretada como falta de cooperação.

Não exagere sintomas

Relatar dor é legítimo.

Mas exagerar dor é contraproducente.

O perito possui:

• Testes clínicos
• Manobras específicas
• Conhecimento anatômico

Ele consegue identificar inconsistências.

A sinceridade como principal estratégia na perícia médica

Se existe um fator decisivo na perícia médica, é este:

A sinceridade.

O perito atua com desconfiança técnica.

Isso não é pessoal.

É parte do método.

Ele precisa confirmar se:

• O relato é verdadeiro
• Os sinais são compatíveis
• Existe coerência

Uma única mentira pode comprometer todo o caso.

Por que mentir é um erro grave

Quando o perito identifica inconsistência:

• Ele passa a duvidar de tudo
• Mesmo do que é verdadeiro

Além disso:

• Pode gerar indeferimento imediato

A importância da coerência na perícia médica

A perícia médica é, acima de tudo, uma análise de coerência.

O perito busca alinhamento entre:

• História clínica
• Exame físico
• Documentos
• Comportamento

Quando tudo converge, a conclusão se fortalece.

Quando há conflito, a conclusão se fragiliza.

A presença de acompanhantes na perícia médica

Esse é outro ponto importante.

Em regra, o periciado deve entrar sozinho.

Quando o acompanhante é permitido

A presença pode ser necessária em casos como:

• Deficiência auditiva
• Deficiência visual
• Transtornos psiquiátricos graves
• Dificuldade de comunicação

Quando evitar acompanhantes

Fora essas situações:

• Pode atrapalhar a dinâmica
• Pode gerar desconforto
• Pode interferir na avaliação

Erros mais comuns na perícia médica

Alguns erros são recorrentes:

• Exagerar sintomas
• Levar documentos irrelevantes
• Tentar convencer emocionalmente
• Simular limitações
• Não colaborar com o exame

Esses comportamentos reduzem a credibilidade.

Conclusão: como aumentar as chances na perícia médica

A perícia médica não é um espaço de convencimento emocional.

Ela é uma avaliação técnica.

O periciado que compreende isso sai na frente.

A melhor estratégia é simples:

• Seja natural
• Seja objetivo
• Seja coerente
• Seja sincero

Porque, na perícia médica, não basta parecer incapaz.

É necessário demonstrar, de forma natural e consistente, a incapacidade laborativa.

Dra. Michelle Pitz

Michelle Lima Pereira Pitz é médica e perita médica judicial, com mais de 2.000 perícias médicas realizadas no âmbito da Justiça Federal e Estadual. Graduada em Medicina e especialista em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), possui pós-graduação em Medicina do Trabalho. É membro da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícia Médica (ABMLPM) e atua na análise de incapacidade laborativa, nexo causal entre doença e trabalho e elaboração de laudos periciais técnico-científicos. Também é docente em pós-graduação em Perícia Médica, contribuindo para a formação de novos profissionais na área.

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